O Gestor Patrimonialista: A Mentalidade Que Se Opôs À Contabilidade
Enquanto o modelo orçamentário se consolidava, outro fenômeno crescia em paralelo: a resistência de gestores públicos à estruturação de uma contabilidade patrimonial moderna. Essa resistência não era apenas técnica; era...
Parte II - O Ponto de Inflexão: quando a Contabilidade Pública mudou de rumo
Use esta versão digital para leitura contínua ou o botão “Abrir no PDF” para visualizar o projeto gráfico original a partir da página correspondente.
Enquanto o modelo orçamentário se consolidava, outro fenômeno crescia em paralelo: a resistência de gestores públicos à estruturação de uma contabilidade patrimonial moderna. Essa resistência não era apenas técnica; era ideológica. Ela brotava de uma cultura que precede o Brasil e se enraíza no patrimonialismo — essa mistura peculiar de autoridade pessoal, informalidade administrativa e confusão entre público e privado. Para entender isso, imagine um prefeito de uma cidade média bras ileira na década de 1970. Ele governa em um ambiente profundamente marcado por relações pessoais. Sente-se mais dono do que gestor. Prefere negociar obras no campo político do que no administrativo. Recebe pedidos, distribui favores, nomeia aliados, mantém relações com empresários locais que dependem de sua boa vontade. Tudo isso faz parte da lógica do poder local. Nesse contexto, uma contabilidade patrimonial forte seria quase um incômodo. Ela exigiria inventários rigorosos, controle de bens, medição de ri scos, registro de perdas, responsabilização por deterioração. Ela tornaria visível aquilo que muitos gestores preferiam que permanecesse invisível: o estado real do patrimônio público. Ela colocaria limites administrativos em práticas políticas enraizadas. A verdade é que a ausência de contabilidade patrimonial nunca foi apenas descuido. Foi conveniência. Conveniente para gestores que não queriam prestar contas do que faziam com os bens públicos. Conveniente para prefeitos que herdavam caos patrimonial e pr eferiam deixá -lo como estava. Conveniente para quem via o patrimônio público
como moeda de troca, não como responsabilidade. Esse ambiente cultural criou uma administração avessa à técnica. Uma administração que se orgulhava mais de “fazer obras” do que de mensurar seus impactos. Mais de “gastar verbas” do que de cuidar de bens públicos. Mais de “executar” do que de planejar. O gestor patrimonialista, portanto, não se opôs apenas à contabilidade moderna — ele se opôs à própria ideia de racionalidade administrativa. E essa mentalidade permanece viva em muitas prefeituras até hoje.