A Contabilidade Pública que o Brasil Perdeu e o Estado que Precisa Nascer
Parte V • página 89
Sumário
Capítulo 42

O Conflito Entre Terceirização E Soberania Técnica: Quando O Estado Abdica De Si Mesmo

A terceirização dos serviços de contabilidade pública se tornou, nas últimas décadas, uma prática tão comum que muitos gestores já não conseguem sequer imaginar a administração municipal sem a presença de empresas...

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Parte V - Práticas Contemporâneas e Tensões Atuais

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A terceirização dos serviços de contabilidade pública se tornou, nas últimas décadas, uma prática tão comum que muitos gestores já não conseguem sequer imaginar a administração municipal sem a presença de empresas privadas atuando como cérebro técnico do Estado. Mas essa prática, embora comum, produz consequências profundas — algumas visíveis, outras silenciosas, e outras ainda devastadoras. A terceirização, quando usada como apoio, pode ser legítima. Mas quando usada como substituição, transforma o Estado em um órgão dependente, vulnerável e tecnicamente enfraquecido. E, sobretudo, cria uma dinâmica perversa: a invisibilização do contador público concursado. 1. Como surgiu essa dependência das empresas? O fenômeno não apareceu por acaso. Ele é fruto de uma sequência histórica: fragilidade da formação contábil nas décadas passadas; falta de concursos regulares; ausência de carreiras atraentes para contadores; falta de valorização institucional; negligência histórica com a contabilidade patrimonial; cultura de improviso; ausência de sistemas próprios integrados; falta de governança; resistência a mudanças administrativas. Nesse vácuo técnico, empresas terceirizadas ocuparam o espaço deixado pelo Estado. 2. O problema não é a empresa — é a substituição do Estado

A terceirização se torna um problema quando: a empresa decide o que o órgão “pode” ou “não pode” lançar; a empresa assume a interpretação normativa que deveria ser pública; o contador efetivo vira um espectador; a administração perde autonomia técnica; a memória institucional desaparece; o conhecimento patrimonial se perde; o Estado se torna refém de contratos renovados indefinidamente. É uma terceirização que não presta serviço — ocupa o lugar do Estado. 3. A erosão da soberania técnica Soberania técnica é a capacidade do Estado de: interpretar normas; conduzir processos; tomar decisões metodológicas; padronizar rotinas; definir critérios; estabelecer entendimentos; produzir conhecimento próprio. Quando empresas terceirizadas assumem esse papel, o Estado: perde autonomia; perde técnica; perde continuidade; perde identidade profissional; perde capacidade de governança. É uma abdicação silenciosa — mas grave. 4. O ciclo vicioso da dependência A prefeitura terceiriza porque não confia nos servidores. Os servidores não são treinados porque a prefeitura terceiriza. Como não são treinados, dependem ainda mais da empresa. E como dependem mais, a prefeitura terceiriza

ainda mais. O ciclo se repete, estrutural e psicologicamente: Quanto mais o Estado terceiriza, menos ele sabe. Quanto menos ele sabe, mais terceiriza. Esse ciclo é extremamente perigoso, porque transforma municípios inteiros em estruturas administrativas fragilizadas, incapazes de reagir a crises quando a empresa contratada erra, some ou é substituída. 5. Os impactos institucionais A substituição do contador efetivo por empresas privadas gera problemas concretos: atrasos em balanços; falta de padronização; inconsistências data-driven; vulnerabilidade jurídica; risco de manipulação política; fragilidade no controle interno; perda de credibilidade; instabilidade nos relatórios enviados a órgãos federais; baixa capacidade de implantação de SIAFIC; ausência completa de cultura de custos. O Estado se torna tecnicamente dependente — e politicamente vulnerável. 6. Os impactos humanos Mais profundo que o impacto técnico é o i mpacto humano: servidores concursados são desautorizados; perdem espaço; deixam de ser consultados; se sentem inúteis; têm sua identidade profissional apagada; observam empresas privadas “tomarem seus lugares”; são tratados como auxiliares administrativos, e não como contadores; enfrentam humilhações veladas; recebem ordens indiretas de quem nem é servidor; se afastam da própria ciência que estudaram. Essa dor é invisível. Mas é real. E se tornou epidêmica em centenas de municípios brasileiros.