A Nova Gestão Pública Em Disputa: Entre A Governança E O Patrimonialismo
O sécul o XXI trouxe uma promessa ambiciosa para o setor público brasileiro: a ideia de que era possível construir uma Administração Pública baseada em governança, evidências, transparência e resultados. No discurso,...
Parte V - Práticas Contemporâneas e Tensões Atuais
Use esta versão digital para leitura contínua ou o botão “Abrir no PDF” para visualizar o projeto gráfico original a partir da página correspondente.
O sécul o XXI trouxe uma promessa ambiciosa para o setor público brasileiro: a ideia de que era possível construir uma Administração Pública baseada em governança, evidências, transparência e resultados. No discurso, esse projeto avançou. Na prática, ele enfrenta resistência diária do velho modelo patrimonialista — aquele que vê a prefeitura como extensão de grupos políticos, e não como instituição de Estado. A contabilidade pública, nesse cenário, se torna campo de disputa. Não é mais apenas técnica: é política, é cultural, é ideológica, é geracional, é identitária. 1. A "Nova Gestão Pública" tenta entrar pela porta da frente Governança, planejamento, metas, custos, desempenho, controle interno estruturado, sistemas integrados, indicadores — tudo isso compõe o novo vocabulário da administração moderna. Essa gestão exige: decisões técnicas; previsibilidade; continuidade administrativa; métricas claras; servidores capacitados; controle interno forte; contabilidade como base de decisões. Ela enxerga o Estado como organ ização que deve entregar valor ao cidadão. 2. Mas o patrimonialismo tenta entrar pela porta dos fundos
O patrimonialismo — herança histórica brasileira — resiste. E resiste de forma ativa. Ele vive nas frases: “Aqui sempre foi assim.” “Não complica, faz aí do jeito rápido.” “Depois a empresa de contabilidade ajusta isso.” “Não precisa inventar moda, ninguém nunca cobrou isso antes.” “É só empenhar que resolve.” “Esses inventários só dão trabalho.” “Quem manda é o prefeito.” “Isso não dá voto.” Esse discurso é a expressão da velha lógica, baseada em: improviso, informalidade, centralização do poder, desprezo pelo patrimônio, desprestígio do servidor concursado, manipulação de informações, cultura de apagar incêndios. Ele enxerga o Estado como extensão de grup os, não como instituição republicana. 3. O conflito diário entre as duas visões O cotidiano das prefeituras é palco de um embate silencioso: O técnico recomenda registrar depreciação; O político diz que isso “não importa”. O contador quer implantar custos; O secretário diz “não precisa”. O controle interno aponta inconsistências; O gestor responde “depois a gente vê”. O sistema SIAFIC exige integração; os setores continuam isolados. É um conflito psicológico, institucional e até moral. 4. A figura do gestor intermediário: quem sofre no meio
da guerra O diretor administrativo, o chefe de contabilidade, o controlador interno, o contador efetivo — todos eles vivem diariamente o dilema de tentar implantar práticas modernas enquanto são pressionados por uma cultura contrária. Eles se sentem: esgotados, desmotivados, sobrecarregados, desautorizados, desamparados, frustrados por tentarem “fazer certo” num ambiente que puxa para trás. Essa exaustão cumulativa é uma das principais causas de adoecimento institucional na gestão pública contemporânea. 5. A sociedade não percebe o conflito — mas sofre seus efeitos Quando o patrimonialismo vence: obras atrasam, compras são mal planejadas, escolas deterioram, hospitais ficam sem manutenção, frota pública se desmancha, bens desaparecem, o dinheiro público é desperdiçado. Quando a governança vence: serviços melhoram, custos caem, patrimônio é preservado, transparência aumenta, o planejamento funciona, o Estado se torna confiável. Mas esse embate não é visível para a população — ele acontece nos bastidores administrativos, nas salas dos contadores, nos corredores das secretarias.
6. O papel decisivo da contabilidade nesse campo de batalha A contabilidade pública moderna é o instrumento mais poderoso contra o patrimonialismo. Ela: expõe irregularidades, reduz o improviso, aumenta a transparência, cria rastreabilidade, fortalece o controle interno, impede manipulação, profissionaliza a gestão, obriga planejamento, quebra paradigmas antigos. Por isso, paradoxalmente, ela é muitas vez es alvo de resistência. 7. A transição ainda está em curso O Brasil não abandonou o patrimonialismo. Mas também não retrocedeu. Estamos no limiar entre dois mundos — e o resultado dessa disputa determinará a qualidade do Estado brasileiro nas próximas décadas.
- PARTE V
- PRÁTICAS
- CONTEMPORÂNEAS E
- TENSÕES ATUAIS