A Contabilidade Pública que o Brasil Perdeu e o Estado que Precisa Nascer
Parte V • página 81
Sumário
Capítulo 40

O Paradoxo Do SIAFIC: Quando O Sistema Avança, Mas A Cultura Fica Para Trás

O SIAFIC, criado para unificar a administração financeira e contábil dos entes federados, representa um dos maiores avanços da história recente da gestão pública brasileira. Ele nasce com um propósito claro: ro mper a...

Parte do livro

Parte V - Práticas Contemporâneas e Tensões Atuais

Leitura rápida

Use esta versão digital para leitura contínua ou o botão “Abrir no PDF” para visualizar o projeto gráfico original a partir da página correspondente.

O SIAFIC, criado para unificar a administração financeira e contábil dos entes federados, representa um dos maiores avanços da história recente da gestão pública brasileira. Ele nasce com um propósito claro: ro mper a fragmentação, eliminar ilhas de informação, evitar manipulações e garantir transparência plena. Tecnicamente, ele é brilhante: integra empenho, liquidação, pagamento, contratos, almoxarifado, patrimônio, obras, receitas, convênios, folha, controle i nterno e contabilidade em uma única estrutura lógica. Mas seu maior desafio não é técnico — é cultural. 1. O SIAFIC exige o que a cultura não entrega Para que o SIAFIC funcione plenamente, é necessário: almoxarifado organizado; controle patrimonial rigoroso; registro tempestivo de bens; contratos bem estruturados; integração com sistemas de obras; servidores treinados; aderência ao regime de competência; gestão documental completa. Mas a realidade de muitos municípios revela: estoques desorganizados; bens sem etiqueta; obras registradas parcialmente; notas fiscais cadastradas por costume, não por norma; documentos arquivados em caixas antigas; ausência de fluxo de informações entre secretarias; despreparo técnico dos responsáveis; rotatividade política que d estrói continuidade administrativa. O SIAFIC, nesse contexto, se torna um sistema avançado

operado por uma cultura atrasada. 2. O sistema revela, sem piedade, as fragilidades institucionais O SIAFIC não permite “jeitinho”. O sistema exige informação completa, lógica, encadeada. Se uma obra é lançada errado, o sistema trava. Se um bem não é incorporado, o módulo patrimonial “chama atenção”. Se o almoxarifado não registra corretamente, surgem inconsistências. Se o empenho não corresponde ao contrato, o sistem a sinaliza alerta. Se a liquidação é feita sem documento comprobatório, há risco de apontamento. O SIAFIC é um espelho — e um espelho cruel, porque não aceita versões, apenas fatos. 3. A resistência silenciosa Muitos servidores, acostumados a trabalhar com: planilhas paralelas, formulários improvisados, cadernos de controle, memoriais orais, processos pouco documentados, sentem o SIAFIC como uma invasão, uma cobrança, uma intolerância da máquina. A resistência é silenciosa, mas constante: “isso é muito complicado…” “antes era mais fácil fazer…” “não precisa lançar tudo…” “depois a empresa terceirizada ajeita…” “isso não atrapalha no orçamento mesmo…” Essas frases revelam uma disputa entre duas eras. 4. O gestor entre duas forças O SIAFIC exige decisões racio nais. A política exige decisões imediatas. O prefeito quer inaugurar obras, mas o sistema mostra que há pendências patrimoniais. A secretaria quer comprar novos equipamentos, mas o módulo de custos revela subutilização. A gestão quer lançar programas socia is, mas o sistema mostra risco fiscal. O prefeito quer contratar empresa rapidamente, mas o controle interno aponta falhas.

A modernidade e o improviso entram em choque. E o contador fica no epicentro desse conflito. 5. A grande verdade: o SIAFIC não resolve nada sozinho Ele não cria cultura. Ele não cria responsabilidade. Ele não cria memória institucional. Ele não cria técnica. O SIAFIC é uma ferramenta poderosa, mas depende de: pessoas treinadas, processos claros, cultura de registro, disciplina instituc ional, contadores valorizados, controle interno ativo, gestores comprometidos. Sem isso, ele se transforma em um sistema de alto nível usado de forma mínima, apenas para cumprir a legislação. 6. O paradoxo O paradoxo contemporâneo é que: O Brasil possui sistemas avançados — mas mentalidades antigas. Possui normas avançadas — mas práticas frágeis. Possui contabilidade moderna — mas estruturas políticas arcaicas.